Preconceito

Um em cada cinco portugueses sofre de algum tipo de perturbação mental. (Caldas de Almeida, Estudo epidemiológico de saúde mental). Desses casos, 80% correspondem a doenças de gravidade ligeira ou moderada, enquanto 20% são considerados doença mental grave.

Apesar de serem doenças frequentes, o acesso ao tratamento continua limitado. Cerca de um terço dos doentes graves não chega a obter qualquer tipo de tratamento. As razões para este facto são inúmeras e entre elas está o preconceito.

Os motivos para a desconfiança em relação à psiquiatria são muitos. Entre eles, o receio de tomar comprimidos que podem viciar ou adormecer. Fazer um tratamento que modifica o comportamento ou o pensamento é para muitos totalmente inaceitável. Noutros casos, pode gerar sentimentos de culpa ou baixa auto-estima.

Os medicamentos psiquiátricos são relativamente recentes. A introdução da cloropromazina nos anos 50 revolucionou o tratamento das doenças mentais. Doentes com psicose tiveram pela primeira vez terapêuticas eficazes. Antes disso, quem sofresse de esquizofrenia ou outras psicoses graves, corria o risco de ficar confinado a um asilo ou viver uma vida de encarceramento.

Ainda no final da década de 50, surgiu o primeiro antidepressivo, a imipramina. Este medicamento veio mudar completamente a face da Psiquiatria, permitindo tratar doentes com depressões gravíssimas. Devido aos seus efeitos adversos, nomeadamente a sonolência e aumento de peso que podem causar, e ao estigma que existe na sociedade relativo às doenças mentais, ainda hoje há desconfiança para com os tratamentos farmacológicos disponíveis.

Contudo, enormes avanços ocorreram desde então. Nas décadas que se seguiram outros medicamentos foram lançados. Nos anos 60, o Prozac (fluoxetina) e o Valium (diazepam) tornaram-se conhecidos em todo o mundo. É discutível se o sucesso que estes fármacos tiveram se deveu a um uso indiscriminado ou se vieram preencher uma lacuna que existia desde sempre. Por outro lado, o aparecimento de novos tratamentos veio aumentar a consciência da doença mental por parte dos médicos e da população, o que veio contribuir para o grande impacto destes medicamentos imediatamente após o seu lançamento.

Desde então, os avanços em todas estas classes de medicamentos – antipsicóticos, antidepressivos e ansiolíticos – foram enormes, com perfis de efeitos adversos muito mais seguros e fáceis de tolerar. Estes novos fármacos permitiram que o tratamento não estivesse só limitado a pessoas incapacitadas e com doença mental grave.

As doenças psiquiátricas, inclusivamente as consideradas “ligeiras ou moderadas”, são fonte de grande incapacidade e sofrimento. Todavia, nos casos considerados ligeiros o número de pessoas que não obtém ou não procura tratamento é alarmante – apenas uma em cada cinco pessoas acaba por ser tratada apropriadamente.

Noutras áreas médicas o estigma e o preconceito são muito menores. Ao contrário da maioria das perturbações psiquiátricas, a maioria das pessoas não se sentirá culpada ou fraca por tomar medicamentos para a hipertensão ou para a diabetes. Não olham para estes tratamentos como viciantes e não se importam de os fazer “para toda a vida”.

Assim, é o momento de derrubar preconceitos sobre as doenças mentais e os tratamentos disponíveis, e permitir que mais pessoas tenham a possibilidade de escolher fazer um tratamento cientificamente rigoroso, seguro e adequado que pode mudar as suas vidas. Vamos a isso?

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