Tratamentos psiquiátricos mal sucedidos

Duarte vivia atormentado por ansiedade e depressão há vários anos. A ideia de ter um problema psicológico era inaceitável, mas, se por acaso o tivesse, sentia que tinha de ser ele sozinho a dar a volta àquela situação.

Ouvia e cumpria os conselhos dos seus amigos e lá arrastava a sua melancolia para o ginásio. Diziam-lhe que tinha de “fazer desporto, de sair de casa e estar com as pessoas”, mas os almoços com os amigos de costume eram cada vez mais penosos . A sua incapacidade de desfrutar desses momentos fazia com que se sentisse culpado. Preferia estar em casa, triste.

Uma vez – em desespero – recorreu a uma urgência no hospital mais próximo. Foi atendido por um médico rabugento que ouviu entediado as suas queixas. Duarte já não dormia nada de jeito há vários dias. Na garganta tinha um nó que que não o deixava comer. Quando se obrigava a engolir qualquer coisa, ficava com meia garfada de “bacalhau à Brás” a rebolar no estômago durante horas. O clínico deu-lhe um ansiolítico desses conhecidos – victan, xanax ou qualquer coisa do género – e rapidamente sentiu algum alívio. Não estava bom, mas ao menos não tinha os nervos em franja. Levou para casa uma receita de antidepressivos e indicação de consultar um psiquiatra.

A contragosto, lá acabou por decidir ir à farmácia e comprou a medicação. Na “bula” vinham descritos os mais incríveis efeitos secundários e Duarte sentiu-os todos. A ideia de tomar qualquer coisa que o alterasse era assustadora e, ainda por cima, ao segundo dia de tratamento, sentia-se ainda pior – a voz tremia-lhe e os enjoos deixaram-no à beira do vómito.

Duarte tinha uma tia afastada que andava sempre “enfrascada” com os comprimidos do psiquiatra. Lembrava-se dela, sempre meio parada e a enrolar as palavras. Não queria ficar assim. Além disso, tinha uma amiga de escola que sofria de um problema parecido com o seu e que já tomava medicamentos há anos e não os conseguia largar. Como não queria que o seu destino fosse o mesmo, largou o tratamento. Afinal de contas, o seu problema não era assim tão grave para precisar de um psiquiatra.

Os medicamentos psiquiátricos podem ser muito úteis nos casos selecionados. Quando combinados com a psicoterapia apropriada, os seus efeitos são ainda mais vantajosos.

Os efeitos secundários aos tratamentos antidepressivos são, em regra geral, benignos e transitórios. Porém, são mais frequentes nas pessoas com expectativas negativas em relação ao tratamento.

Toda a gente conhece situações de tratamentos psiquiátricos mal sucedidos. Não copie os exemplos dos outros que podem ter problemas muito diferentes do seu. Não embarque em lugares comuns. A sua tia podia estar efectivamente mal medicada ou ter um problema grave que a obrigava a cumprir um tratamento mais “pesado”. Experimentar um medicamento não o vai viciar para sempre. A duração do tratamento é determinada pela situação em si, e não pelos medicamentos.

João Data Franco https://pensamento.pt/teams/joao-data-franco/

Related Posts

Preconceito

January 21, 2020

Consulta em equipa

January 21, 2020