Identificar a psicose

Bruno era um homem esforçado e desenrascado. Não tinha seguido longe nos estudos, mas cedo havia começado a trabalhar. A pulso, foi subindo na vida e, actualmente com 48 anos, era proprietário de um pequeno negócio onde trabalhavam também a sua mulher e os seus dois filhos mais velhos. 

O seu filho mais novo, Daniel, agora com 18 anos, sempre tinha sido o seu preferido. Era calmo, recatado e respeitador. Nunca tinha arranjado problemas na escola, ao contrário dos seus dois irmãos que andavam sempre em confusões. 

Bruno tinha grandes expectativas para Daniel. A sua calma e compostura alimentavam a esperança de, apesar de não ser um aluno brilhante, vir a estudar e a ter uma vida mais facilitada do que a que ele próprio tinha. 

No primeiro ano do curso de engenharia civil, algo mudou. Com o passar dos meses, o recato transformou-se em isolamento. Daniel nunca tinha tido grandes amizades, mas agora passava cada vez mais tempo sozinho.  

A dada altura, deixou totalmente de sair de casa e depois, até do quarto. Os pais começaram a preocupar-se. Quando o confrontavam encolhia os ombros ou dizia que naquele dia não tinha aulas. As refeições, que sempre tinham sido um momento agradável, eram agora um inferno. Daniel era frequentemente confrontado com os motivos da sua apatia, isolamento e preguiça. Estava a ter uma oportunidade que nenhum outro membro da família tinha tido e a maneira como lidava com aqueles primeiros tempos de faculdade era intolerável pelos pais. Os seus irmãos sentiam-se injustiçados. Sentiam que os pais tinham sido muito mais rígidos com eles do que com Daniel, e acusavam-nos de ser demasiado brandos com ele. – Têm de o pôr na linha! – reclamavam frequentemente. – Se não quer estudar, que trabalhe como nós fizemos! 

Para evitar as discussões passou a comer no quarto, onde acumulava louça suja e embalagens com comida. Quando o questionavam, reagia frequentemente com agressividade. 

Como forma de amenizar o ambiente, Bruno e sua mulher decidiram dar-lhe um pouco de espaço. Talvez seja só uma fase – pensavam esperançados. 

Já no fim do ano lectivo começaram a notar algumas mudanças. Daniel saía mais vezes de casa e, quando lá estava, parecia falar sozinho dentro do seu quarto. Deve estar a estudar – imaginavam. 

Daniel acabou por reprovar, algo que gerou grande frustração em toda a família. Já Daniel parecia indiferente. 

Daí em diante as coisas evoluíram rapidamente. Por vezes, saia esbaforido do quarto e perguntava coisas totalmente despropositadas e que ninguém compreendia. Em várias ocasiões ouviam-no berrar dentro do quarto – CALEM-SE, CALEM-SE! Bruno já se tinha exaltado várias vezes com Daniel e já tinha estado perto de lhe bater.  

Semanas mais tarde, Bruno foi contactado por um médico que prestava serviço num hospital da zona onde moravam. Daniel tinha sido encontrado descalço não muito longe de casa. Parecia confuso e estava agora internado no serviço de Psiquiatria. 

Identificar a psicose nas suas fases iniciais é frequentemente difícil. Esta pequena história que narrei é totalmente ficcionada, mas podia perfeitamente ser real. As manifestações iniciais das psicoses não são sempre óbvias para os doentes e muito menos para as suas famílias. Por ignorância, negligência ou preconceito, alguns doentes passam meses – ou até anos – até serem avaliados e tratados adequadamente por um psiquiatra.  Se conhece um caso como este ou parecido, não hesite em procurar ajuda! 

João Data Franco https://pensamento.pt/teams/joao-data-franco/