Dúvida patológica

Saiu de casa a correr, decidido, mas já atrasado. Já está a pôr a chave na ignição e, de repente, a dúvida – Será que fechei bem a porta? Sente que a ideia é disparatada, pois não se recorda de alguma vez ter deixado a porta aberta, nem tão pouco fechada apenas no trinco. Inicialmente, tenta resistir, mas a preocupação cresce. E se, com esta pressa toda, não olhei bem e deixei-a aberta – imagina, já preocupado. É uma grande responsabilidade e a culpa é minha – pensa, bastante apreensivo.

Contra todas as probabilidades, decide voltar apressado para o terceiro andar sem elevador.

Chegado lá acima, já meio suado da correria, depara-se com o cenário previsto – a porta estava fechada, e bem fechada. Aproveita a subida e confere novamente os fechos de todas as janelas da casa e os bicos do fogão. Felizmente, vive numa casa pequena e essa verificação é feita “rapidamente” em cinco minutos.

Para ter bem a certeza confirma tudo três vezes, incluindo a porta. Assim, não há hipótese de me esquecer – supõe embora não totalmente convencido. Imagens mentais de explosões, feridos e roubos assaltam a sua mente de forma repentina. Tenta ignorar novamente estes pensamentos estapafúrdios e volta para o carro irritado com o tempo perdido.

Já não sabe se é esquecido ou se é demasiado cauteloso. Irrita-se com tantas dúvidas, indecisões e confirmações, mas por alguma razão, não consegue afastar estas ideias. Pior que isso, são as pessoas com quem lida que se cansam desta situação, e isso fá-lo sentir-se culpabilizado.

A dúvida patológica é apenas uma das manifestações da perturbação obsessivo-compulsiva.

Quer seja o sintoma principal ou quando faz parte do quadro clínico de outras perturbações o seu tratamento é claro e está bem estabelecido.

João Data Franco

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January 21, 2020